Vais a exame, ó Maltês?

Antes de construírem a A2 havia sempre filas de trânsito intermináveis na zona da Marateca, aos domingos à tardinha. Veraneantes de fim de semana, de papo cheio de sol do sul, espalhavam-se por quilómetros e quilómetros da estrada nacional, condenando-nos a uma longa espera. Fechados no Fiat 125, depois de dois dias à solta pelos campos, a sachar com o avô, a meter os pés no tanque e a descer ribanceiras de bicicleta, eu e o meu irmão fechávamos os olhos e dormitávamos. O meu pai, se não vinha ainda muito moído dos constantes reparos da minha mãe ao seu excesso de velocidade, ultrapassagens, proximidade do carro da frente, etc., etc., acordava-nos com uma história. Era uma história que tinha de ser contada ali, na Marateca, pois que era esse o covil dos seus protagonistas.

Contava o meu avô que, em tempos idos, um grande grupo de malteses, os fora-da-lei do Alentejo, se acoitava no vale por baixo da ponte de ferro da Marateca. Ali comiam, dormiam, planeavam incursões às herdades, partilhavam o resultado das pilhagens, faziam vida de maltês.
Eu estava mesmo a vê-los. Os carvalhos da floresta de Sherwood transformados em chaparros, os alegres companheiros a depenarem galinhas roubadas em vez de esfolarem as rezes do xerife, o frade beberrão a sorver restos de aguardente dos bigodes.
Ficava capaz de me juntar a eles debaixo da ponte de ferro, tão românticos os achava. E podia, jurava o meu pai, só tinha de recuar trinta anos e passar no Exame. O Exame para maltês!

(É aqui que a história faz a sua dramática mudança de canal: estávamos a ver um episódio do Robin Hood, passamos para o Masterchef Alentejo.)

Segundo o meu avô, para se ser aceite entre os malteses não era preciso saber ler nem escrever nem contar, apenas preparar umas boas migas. Para tal não bastava acertar nas quantidades de alho, sal e banha de porco, havia que dominar certa técnica. Atentem bem: assim que as migas começassem a ficar cheirosas, a tostar nos cantos e a descolar do fundo do cacifre, o candidato a maltês tinha de as lançar ao ar, com força e precisão, por cima da ponte de ferro, de forma a ir a correr apanhá-las direitinhas do outro lado. Parece difícil? Já se terão ganho estrelas Michelin com muito menos. Não admira que não haja hoje por aí malteses aos pontapés, isto é coisa que não se faz com uma Bimby.

Resta explicar que um cacifre é uma espécie de frigideira com pega, calculo que para ser mais fácil efectuar a manobra.
Vitória vitória, acabou-se a história, o trânsito já flui e eu agora almoçava umas migas, se as houvesse. Com espargos selvagens. E carne de porco frita. Ui.

Para mais leituras sobre a polémica dos alentejanos do Raposo, hoje recomendo este senhor, que sabe do que fala e é da família.

8 comments
  1. As minhas memórias antes da A2 são iguais!
    Quanto às migas, essas são as minhas preferidas e sempre que é época de espargos selvagens, vou lá matar saudades delas :)

    1. :)
      Qual é a época dos espargos? Não faço ideia…

  2. Obrigada, acabei de fazer migas (pela primeira vez) – estão na frigideira.
    Também estou de dieta (penso que responde ao post anterior).

    1. Hehe, não recomendo migas para dietas, a não ser que as atires para cima da ponte e antes a correr atrás delas umas quantas vezes!

  3. grande texto, o do vitor matos
    o post não lhe fica atrás ;)

    1. Obrigada! O Vitor é grande!

  4. estou completamente fora da polémica, fiz mesmo questão de não saber
    mas ficou-me uma curiosidade, por falar em suicidio no alentejo: ele não refere o “ninguém morre sozinho” do Sampaio?

    1. Não faço ideia, só tenho apanhado a confusão que andou pelas redes sociais, vi a entrevista do autor e fiquei com curiosidade de ler o livro, mas mais não sei.

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